Colmeia dos Livros

Resenha | A noite devorou o mundo, de Pit Angarmen

sexta-feira, julho 11, 2014 Conrado Dittrich 1 Comentários

Título original: La nuit a dévoré le monde
Autor: Pit Agarmen
Número de Páginas: 206
Editora: Rocco
Tradução: Carlos Nougué
NOTA: 5/5

Neste inusitado romance de terror e de zumbis, o francês Martin Page, autor do bestseller Como me tornei estúpido, faz uma fábula sobre a sociedade de consumo, sob o pseudônimo de Pit Agarmen. No livro, uma epidemia assola o planeta e transforma os humanos em seres demoníacos, selvagens e cruéis. Antoine Verney é um sobrevivente, mas não tem nada de herói. Como um Robinson Crusoé moderno, ele tem que aprender a sobreviver e a enfrentar a solidão.

Zumbi... É o tipo de monstro recorrente nas principais mídias pop. Eles invadem o cinema, séries de televisão, literatura e, agora, tem uma nova obra literária para se orgulhar. "A noite devorou o mundo", do autor Pit Agarmen, não só traz um novo conceito do gênero, como também consegue explorar a humanidade como um todo através da mente de apenas um personagem - trazendo, assim, uma metáfora profunda. O enredo muito bem elaborado permite-nos adentrar no mundo do protagonista e a narrativa em primeira pessoa nos proporciona uma imersão em sua mente como pouco se vê.

A trama, mesmo que simples, consegue expor uma dramaticidade incrível, com uma ambientação densamente alinhada para proporcionar uma tensão significativamente artística. Agarmen consegue dar profundidade ao seu personagem e, mesmo se tratando de praticamente um monólogo, traz flashbacks como forma de pensamentos cotidianos de Antonie. Isso não só me permitiu conhecer o passado dele, como também fugir um pouco do horror em que ele se encontrava. A maneira como ele se isolou do mundo e passou a viver em um cotidiano simples, me emocionou e conseguiu mostrar a verdadeira humanidade em todos nós. Com isso, o autor traz uma crítica social (muito presente no gênero) sem precisar mostrar muito do mundo. Ele apenas pegou um escritor de romances nada conhecido como protagonista e o colocou nesta situação de risco, contando com o seu passado cheio de decepções para criticar o mundo atual de um jeito brilhante.

O que mais gostei desta obra metafórica, é o fato de que ela deixa de lado a ação e o terror para mostrar a sobrevivência humana diante de um apocalipse zumbi. Com um ritmo razoavelmente rápido, a trama me arrebatou de um jeito, que foi impossível largar o livro. Os questionamentos que Antonie se faz sobre a sua humanidade e as comparações de si mesmo com os monstros, me trouxeram algumas lembranças do que vemos no nosso próprio dia-a-dia. Será mesmo que somos tão diferentes dos zumbis retratados nas histórias fantásticas? Será mesmo que estamos fadados à isso? Isso não só passa na cabeça do protagonista, como também vem de formas diferentes na nossa.

A noite devorou o mundo é escrita como uma forma de diário do protagonista, transferindo assim, toda a sua solidão e seu sofrimento ao leitor. As situações impostas nesses dias descritos são interessantíssimas e mostram uma evolução, não só do personagem, como também na narrativa e sua ambientação. Diferentemente da série The Walking Dead, ou até mesmo dos filmes Resident Evil, este não mostra um matador de zumbis. Traz um jeito brilhante de contar a história de alguém que aceitou a derrota diante de algo inevitável e procura sobreviver com o pouco que tem.

A obra do francês Martin Page (um autor em ascensão) homenageia a cultura pop do gênero zumbi e, ao mesmo tempo, mostra sua capacidade de elaborar uma história fantástica como se fosse verídica, construindo assim um enredo dramático, tenso e que transporta o leitor à mente de alguém comum, como eu e você. Um livro simples, que me ganhou justamente pela simplicidade em contar sobre algo tão complexo, que é a mente humana. Já costumo considerar A noite devorou o mundo como um grande clássico da nossa geração. Um livro curto, mas com um conteúdo rico.

"Sempre soube que as pessoas eram monstros. O fato de hoje serem zumbis é apenas uma confirmação."

Como o próprio autor disse, "criticar virou moda. A única coisa que faz diferença é saber se é bem escrito, se é de fato original". E isso, ele consegue adicionar perfeitamente em sua obra. Um mérito para poucos...

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1 comentários

  1. Oi, Conrado! Meu nome é Monalisa, e acabo de criar um blog cultural, assim como o seu. Pois bem, escrevi hoje a primeira resenha que publicarei no blog, depois fui procurar na internet por outras resenhas para o mesmo livro, e acabei encontrando sua Colmeia. Que descoberta agradável, viu? Gostei muito do seu blog. :)
    Bem, se tiver interesse em conhecer o meu também, quem sabe iniciar uma parceria, sinta-se convidado: www.literasutra.com
    Um abraço!

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